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Da Imaginação à Realidade: D. João V

Da Imaginação à Realidade: D. João V

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Vamos pôr a imaginação a funcionar... como seriam as casas de alguns dos antigos monarcas portugueses, hoje em dia?

Criado por: Ricardo Santos Silva em 01 / 06 / 2021

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Os filmes nascem da imaginação, figura metafórica que tanto faz pelo ser humano, uma personagem ganha contornos na imaginação do seu criador e só depois ganha vida no papel do guião e de seguida na rodagem ou desenho de um filme. Trazemos ao Filmes e Cenas uma série de artigos que nos propõem imaginar. Vamos imaginar como seriam as casas de alguns dos antigos monarcas do nosso país.


Esta seria a casa de D. João V, o rei que foi “menino de ouro” e mulherengo, se ele vivesse em 2021


O exercício é simples: como seria a casa de um ex-monarca português se ele tivesse que viver estes loucos anos de 2020 em diante? A partir de alguns traços bem vincados da personalidade dos reis, pedimos ajuda ao investigador e historiador João Ferreira, autor de vários livros sobre a monarquia portuguesa, para um exercício de imaginação cruzada com conhecimento histórico.


Com o contributo do Imovirtual, que ajuda a construir essas casas imaginadas, este artigo é sobre D. João V e faz parte de uma série mais alargada, que inclui outros três monarcas decisivos na história portuguesa e até brasileira: D. Afonso Henriques, D. Dinis e D. Maria II.


João Francisco de seu nome, o menino que viria a ser El-Rei D. João V nasceu mimado e mimado morreu. Não admira: por um lado, foi criado pela tia-avó, Catarina de Bragança, e já se sabe como são as avós. Catarina de Bragança é essa mesmo, a rainha-consorte de Inglaterra, que levou a tradição do chá para o país onde ele é hoje tão famoso, e que voltou a Portugal após a morte do marido. Catarina engravidou três vezes e três vezes sofreu abortos. O menino João Francisco foi o filho que ela nunca teve.


Por outro lado, não houve rei mais rico do que D. João V, que ascendeu ao trono aos 17 anos e a quem nunca faltaram ideias sobre como usar o dinheiro. Não só para o país como para si próprio.


Há uma razão que explica toda essa riqueza: foi nos anos do seu longo reinado que se descobriu que o subsolo brasileiro era rico em ouro, diamantes e pedras preciosas, o que levou muitos portugueses a abandonar o país rumo à América Latina. Mas eles ainda nem iam a meio da viagem e já D. João V tinha inventado um imposto. 


O “quinto”, assim se chamava, obrigava a que 20% de toda a riqueza extraída no Brasil viesse parar às mãos da Coroa Portuguesa. O imposto já existia, como lembra o historiador João Ferreira, mas nunca nenhum rei tinha tido hipótese de o usar com um material tão valioso (dá para ver a diferença entre cobrar um quinto de malaguetas ou um quinto de uma barra de ouro, não dá?).


D. João V nunca teve vergonha de ser rico. Pelo contrário, fazia questão de o mostrar, era o Rei-Ostentação, o Rei-Sol português, se tivéssemos tido um. Se fosse hoje, faria lembrar um certo presidente dos EUA, que um dia mandou forrar as paredes da Casa Branca com ouro.

Conta-se que em visitas a França e Itália, D. João V andou a atirar moedas de ouro à população, para mostrar como se vivia bem em Portugal. Em alturas como essas, encarnava mesmo o cognome de “O Magnânimo”.

Mas João Ferreira tem uma ressalva a fazer. “Ele era um deslumbrado pelo luxo, mas, atenção, Portugal deve-lhe muito. As obras que mandou construir desculpam tudo. Nessas, gastou muito bem o dinheiro.” Três exemplos:



- Convento de Mafra, em Mafra;
- Biblioteca joanina, em Coimbra;
- Aqueduto das Águas Livres, em Lisboa.

Em cada cidade, uma grande obra; em cada esquina, um imposto para a pagar. João Ferreira lembra que nem tudo foi feito com o ouro do Brasil, já que para o Aqueduto, que resolveu o problema do abastecimento de água em Lisboa, o rei usou o dinheiro do imposto da água. Se D. João V reinasse em 2021, os anexos da declaração de IRS seriam um mundo.



A descrição mais conhecida de D. João V foi feita por José Saramago, no livro “Memorial do Convento”, que conta a história da construção do Convento de Mafra. Resumidamente, Saramago descreve o rei assim: “megalómano, infantil, devasso, libertino e ignorante”. Os primeiros dois adjetivos estão explicados lá em cima, abaixo explicamos os restantes.

Mas antes disso, a casa. Se tivesse de escolher uma cidade para morar em 2021, D. João V certamente faria uma aposta parecida com a do palácio que deu aos filhos bastardos (já lá vamos), uma zona mais rural do que urbana, que misturasse a vida e as comodidades de uma cidade com a tranquilidade e a calmaria de uma vila e do meio mais rural. Certamente seria Sintra nos dias de hoje, que fizesse D. João V estar sempre a curtas distâncias da Lisboa pela qual se encantou, mas também da cidade onde decidiu construir a obra que sonhou e que marcou todo o seu reinado: Mafra.